Trecho do conto: “A Cabeça do Alferes”. (Do livro “Tiradentes, Crônicas da Vida Colonial Brasileira”).

Contam os livros de história que, depois de enforcado, o herói da conjuração Mineira teve o seu corpo esquartejado e salgado, e os pedaços levados a diferentes lugares, no Caminho Novo, entre o Rio de Janeiro e Vila Rica, para ficarem expostos em praça pública, com o que se pretendia aterrorizar as populações e desencorajar novas sedições e revoltas contra os poderes discricionários da monarquia portuguesa no Brasil.

Para Vila Rica, que fora a sede principal da conjuração, levou-se a cabeça decepada de Joaquim José. Cabeça que, encerrada dentro de uma gaiola de ferro, foi dependurada na ponta de um alto poste, e ali deixada, sob a ininterrupta vigilância, de dia e de noite, de quatro soldados da milícia paga (que era a polícia militar de então), em frente ao palácio dos governadores, na atual Praça da Independência (exatamente no local onde hoje se ergue o monumento ao Tiradentes, construído em 1894, 100 anos, portanto, depois do episódio que principiamos a narrar).

No dia 22 de maio de 1792, em que a cabeça foi içada à extremidade do poste, grandes festejos o governo português fez celebrar na cidade: desfiles, procissões, bandas de música, te-déum, jogos e torneios, teatro, mascaradas, fogos de artifício, etc. Tentou-se, em alguma coisa, reproduzir aquilo que fora o apoteótico Triunfo Eucarístico, do ano de 1733, tal como descrito na reportagem de Simão Ferreira Machado, com justiça reconhecida como “o primeiro jornalista de Minas Gerais e do Brasil”

“A claridade dos ares, a serenidade do tempo, a estrondosa harmonia dos sinos, a melodia  das músicas, o estrépito das danças, o adorno das figuras, a formosura na variedade, e a ordem na multidão, geralmente influíam nos corações uns júbilos de suave alegria...”

Terá sido assim no Triunfo do ano de 1733. Triunfo da Igreja, Triunfo Eucarístico. No ano de 92, todavia, o “Triunfo” era bem outro. E as mesmas harmonias, os mesmos fogos, as mesmas músicas e danças não influíam nos corações os mesmos júbilos de suave alegria... Sob a aparência alcoólica de falsa alegria – posto que o senado da câmara fizera uma copiosa distribuição de vinho e cachaça – medravam, na realidade, o medo, a desconfiança e a revolta, na estridência das manifestações, exibicionistas, histéricas, alcoólicas ruidosas e tensas.

Contam os livros de história que, depois de enforcado, o herói da conjuração Mineira teve o seu corpo esquartejado e salgado, e os pedaços levados a diferentes lugares, no Caminho Novo, entre o Rio de Janeiro e Vila Rica, para ficarem expostos em praça pública, com o que se pretendia aterrorizar as populações e desencorajar novas sedições e revoltas contra os poderes discricionários da monarquia portuguesa no Brasil.

Para Vila Rica, que fora a sede principal da conjuração, levou-se a cabeça decepada de Joaquim José. Cabeça que, encerrada dentro de uma gaiola de ferro, foi dependurada na ponta de um alto poste, e ali deixada, sob a ininterrupta vigilância, de dia e de noite, de quatro soldados da milícia paga (que era a polícia militar de então), em frente ao palácio dos governadores, na atual Praça da Independência (exatamente no local onde hoje se ergue o monumento ao Tiradentes, construído em 1894, 100 anos, portanto, depois do episódio que principiamos a narrar).

No dia 22 de maio de 1792, em que a cabeça foi içada à extremidade do poste, grandes festejos o governo português fez celebrar na cidade: desfiles, procissões, bandas de música, te-déum, jogos e torneios, teatro, mascaradas, fogos de artifício, etc. Tentou-se, em alguma coisa, reproduzir aquilo que fora o apoteótico Triunfo Eucarístico, do ano de 1733, tal como descrito na reportagem de Simão Ferreira Machado, com justiça reconhecida como “o primeiro jornalista de Minas Gerais e do Brasil”

“A claridade dos ares, a serenidade do tempo, a estrondosa harmonia dos sinos, a melodia das músicas, o estrépito das danças, o adorno das figuras, a formosura na variedade, e a ordem na multidão, geralmente influíam nos corações uns júbilos de suave alegria...”

Terá sido assim no Triunfo do ano de 1733. Triunfo da Igreja, Triunfo Eucarístico. No ano de 92, todavia, o “Triunfo” era bem outro. E as mesmas harmonias, os mesmos fogos, as mesmas músicas e danças não influíam nos corações os mesmos júbilos de suave alegria... Sob a aparência alcoólica de falsa alegria – posto que o senado da câmara fizera uma copiosa distribuição de vinho e cachaça – medravam, na realidade, o medo, a desconfiança e a revolta, na estridência das manifestações, exibicionistas, histéricas, alcoólicas ruidosas e tensas.

Num certo anoitecer de maio de 93, em que o céu se obscurecia ameaçador, sopesado de grossos nimbos, prenunciadores de tempestade, uma tropa de burros, carregados de quintos de vinho, entrou na praça, conduzida por um velhote baixinho, de espessas barbas brancas, cabelos esbranquiçado-alourados e olhos azuis, arrastando grosseiras alpercatas de couro cru. E com ele, a passo cambaio, nos seus calcanhares, um escravo preto também baixinho e igualmente avançado em anos.
Amável e sorridente, o velhote se dirigiu ao guarda, que tiritava de frio, sob o seu fino jaleco militar:
– Onde é a casa dos Padres de S. Francisco? Eu tô trazendo pra eles este vinho do Arraial da Cachoeira.
O guarda, antes de ensinar a direção a seguir, interessou-se, alvoroçado, pelo vinho:
– Não traz aí um quinto já aberto, só pra mó de a gente esquentar o peito um bocadinho?
O velhote trazia.
Apanhou pressuroso um caneco, aproximou-se de um dos burros, destampou o quinto e encheu a vasilha. O guarda bebeu com sofreguidão. Tinha frio e tinha sede, muita sede e muito frio. E o vinho era de excelente qualidade, vinho generoso e forte, como os melhores do Reino.
Pediu mais.
Bebeu mais um caneco. Mais outro.
O velhote o observava sorrindo.
Depois os dois se sentaram na soleira de  uma porta e foram pitar um cigarro de palha, trocar impressões e notícias. O guarda, que era brasileiro e mulato, notou no velhote um ligeiro  e mal disfarçado sotaque lusitano. "Nasci à beira do S. Francisco, num lugar belíssimo, chamado fazenda da Piraquara”, dizia o velhote. “Mas eu cresci entre os meus pais e avós, todos naturais de Lisboa, guardei no meu falar uns resquícios de sotaque lisboeta. Venho labutando nestas lides de tropeiro desde pequenito, desde os sete aninhos da minha idade...”
É que o guarda já estava “mais pra lá do que pra cá”, sob o efeito do espirituoso vinho. Do contrário teria observado no interlocutor a pele alva e não requeimada de sol, as mãos bem tratadas macias e os pés muito brancos e delicados, a destoar das grosseiras alparcas, e de tudo o mais que se poderia esperar da aparência de um veterano tropeiro...
Enquanto os dois assim papeavam, sem pressa, a noite acabou de fechar os seus portões sobre a friorenta cidade serrana. Nem mais uma só pessoa, nem sequer um cachorro a vaguear pelas ruas. E como únicos rumores, o espaçado patear ocasional de um que outro burro da tropa, os tinidos do cincerro da mula madrinha, e os pigarreios impacientes do escravo ajudante de tropeiro.
As nuvens no céu se amontoavam, como cordilheira às superpostas às negras cordilheiras da serra em torno de Vila Rica do Ouro Preto. E começou a chover em grossos pingos de água gelada, por entre os clarões dos relâmpagos, e o ribombar canhoneante dos trovões, que rolavam e desmoronavam pedras sobre pedras, para as bandas do espinhaço de montanhas na distância.
O guarda quis mais um caneco de vinho, por despedida, enquanto não vinha a outra sentinela para rendê-lo. O velhote porém lhe deu mais dois canecos, e depois mais dois... Antes de acabar de beber o derradeiro, o pobre guarda entregou os pontos. Arriou o corpo no vão de uma escada e ferrou no sono...
Quanto ao velhote, com os seus burros e com seu escravo, não se sabe por que, ainda se demorou pela praça, os cincerros da tropa tilintando por entre o rumor da chuva, que agora caía mais mansa, e cada vez mais gélida. Até que se desfez numa garoa muito fina, quase uma bruma de alto de serra, nas madrugadas de inverno. Por causa da chuva, a sentinela da noite atrasou-se, enquanto o outro soldado pesadamente dormia o seu sono avinhado. No dia seguinte, pela manhã, os primeiros  passantes e os moradores da praça sentiram, ou pressentiram, que havia qualquer coisa de novo, qualquer coisa de diferente, no ar, por ali. Mas não descobriram imediatamente o que era. Mesmo porque uma densa neblina encobria tudo. Até que aí pelas 10 horas um moleque a vadiar pela calçada do palácio dos governadores de repente pôs-se a gritar.
– A cabeça! Cadê a cabeça do enforcado?

Trecho do livro Tiradentes..... (orelha do livro)
Agora vem à luz, graças ao apoio do Dr. Gervásio Cardoso de Carvalho, o presente volume Tiradentes e Crônicas da Vida Colonial Brasileira ao Tempo da Inconfidência, cujo subtítulo poderia ser, à semelhança do livro publicado em 2003: “História e Estórias da Inconfidência Mineira”.
Aqui estão reunidos escritos que cobrem um período de mais de 30 anos da vida do autor, publicados sem a revisão dele e sem eventuais atualizações quanto aos aspectos propriamente históricos. Estamos convencidos, no entanto, de que estas páginas contêm preciosas informações para os estudiosos da história de Minas Gerais. Muitas delas se baseiam em papéis por ora extraviados, como os escritos aqui citados do Capitão José de Sousa Coelho e de seu filho, Padre Francisco de Sousa Coelho, que temos tentado rastrear e redescobrir.
Com base nesses escritos é que o Prof. Rubens reconstrói, na primeira parte, situações que ele próprio denomina de “reportagem histórica”, uma vez que os dados obtidos são transmitidos através de sua recriação imaginativa por parte do autor, em forma de crônicas.
Na segunda parte ele apresenta e defende seus pontos de vista, em matéria propriamente histórica, sobre Tiradentes e a temática da Inconfidência Mineira.
Que o amável leitor perdoe as repetições que encontrar ao longo do livro: elas resultam da reunião, feita por nós, de uma série de textos escritos em épocas diversas e sob enfoques diferenciados que, por esse motivo, decidimos manter.

Introdução ao livro “Tiradentes, crônicas da vida colonial brasileira” de Rubens Fiúza:

Reuni no transcurso de minha vida (tenho 75 anos de idade) uma rica biblioteca de obras, sobretudo históricas; mas não sou historiador, nem por vocação nem por opção. Mesmo porque, na eterna luta contra a imaginação, a minha compulsiva fantasia leva sempre a melhor e em quase toda tentativa que faço de reconstituir com fidelidade os fatos realmente acontecidos, a imaginação toma a dianteira, e se sobrepõe a estes fatos, suplantando-os, mergulhando-os num rico tecido de peripécias fabulosas, alargando sempre a margem de irrealidade, sobre a estreita fímbria do efetivamente acontecido. A “estória” ganha terreno, em detrimento da história. Serei, talvez, um incorrigível novelista (que não ousa dizer o seu nome...).
O que quero, pois, empreender aqui não passará de uma reportagem histórica, neste sentido de que relatarei aqui, na medida em que possa corretamente recordá-los, os fatos por mim lidos, há mais de cinqüenta anos, num certo manuscrito do século XVIII,que se perdeu. Se o manuscrito ainda existisse, e fosse acessível aos pesquisadores, seria uma fonte histórica inestimável, sobretudo para os interessados em reconstituir a história mineira da segunda metade do século XVIII. Seria uma autêntica revolução nos estudos mineiros setecentistas.
Que manuscrito era esse? E como se perdeu? Intitulava-se Memória de um Camarista Pitanguiense sobre o Povoamento dos Sertões Diamantinos do Indaiá e do Abaeté, de autoria do Capitão José de Sousa Coelho, Presidente da Câmara da Vila do Pitangui, no centro-oeste de Minas.
Os dois rios, Indaiá e Abaeté, banham as terras do centro-oeste mineiro e são afluentes da margem esquerda do São Francisco, ambos, até hoje, diamantíferos. O diamante, no século XVIII, era de exploração vedada aos particulares, e considerado um monopólio exclusivo do Rei de Portugal. O fato de um particular explorá-lo e vendê-lo seria tachado de grave crime, e não apenas uma simples contravenção. O particular que o fizesse seria, então, visto como um extraviador, um inimigo da lei colonial, um contrabandista, um solapador, imperdoável, do domínio luso sobre o Brasil Colonial. Merecedor dos mais severos castigos: prisão, degredo, etc. E até morte pela tropa repressora do tráfico clandestino. Não obstante isto, o contrabando crescia sempre. Uns contrabandistas tinham objetivos puramente econômicos: queriam enriquecer-se. Outros se encobriam com a desculpa “nativista” de que era preciso lutar, de alguma forma, contra o colonialismo português, por exemplo, numa atividade de sabotagem, como o contrabando de gemas. Apesar da severidade das leis repressivas, o tráfico, isto é, o contrabando, era muito maior do que geralmente se pensa hoje em dia. José de Sousa Coelho afirma no seu manuscrito que a quantidade de metais e pedras preciosas roubados à Coroa Lusitana e contrabandeados era muito maior do que a quantidade de ouro e diamantes legalmente explorados pelos agentes da Coroa e enviados para o Reino. Mais do dobro ou do triplo. Vendidos diretamente aos traficantes holandeses e britânicos ou a pessoas a serviço deles. Esse contrabando ia para S. Paulo, na maior parte, e ali receptado por navios holandeses ou ingleses, atracados em portos secretos da costa vicentina. Sousa Coelho conhecia de viva experiência esse tráfico, porque ele, ocultamente, dele participava, “doublé” de camarista e traficante... Enriqueceu-se no tráfico. Sousa Coelho, aliás, meu tetravô, era judeu português, nascido nas imediações da cidade do Porto e emigrado, com a mãe, D. Isabel Coelho, aos treze anos de idade para o Brasil, fugindo das odiosas brutalidades da Inquisição (que havia torrado, na fogueira, em praça pública, o seu pai, José de Sousa). Era, pois, natural que Sousa Coelho odiasse os portugueses, e tudo fizesse, ao seu alcance, no sentido de solapar o seu domínio no Brasil. Ele confessa, nas páginas de seu manuscrito, que parecia não ser destinado à publicação, esse ódio incontido. O manuscrito foi achado em Pitangui, numa garagem abandonada, da casa em que morou o Conselheiro Joaquim Antônio Gomes da Silva, antigo cronista da velha Pitangui, e foi comprado pelo Dr. Onofre Mendes Júnior, advogado na cidade e futuro desembargador em Belo Horizonte. Eu, quando jovem, freqüentava a casa do Dr. Onofre (cujos filhos eram meus amigos) para ouvir música, pois o Dr. Onofre possuía uma das melhores discotecas de compositores clássicos na Capital. E aí, em 1941, conheci o manuscrito de meu tetravô Juca de Sousa (José de Sousa Coelho) e o li, aos poucos, no escritório do Doutor (já que ele, ciumento daquela preciosidade histórica, não quis emprestar-me o valioso códice). Li as velhas páginas; a letra era grande e bonita, fácil de decifrar, e a linguagem setecentista não era difícil, para quem estivesse familiarizado com o dialeto caipira (que conserva muitas expressões tipicamente arcaicas). Mas anotei resumidamente os episódios mais interessantes, sem me preocupar em conservar o linguajar original, além de que os meus interesses, na época, não eram, naturalmente, os de um historiador.
Como desapareceu o documento? Talvez tenha sido roubado, nos dias da doença do Dr. Onofre, que terminou com a sua morte. A sua biblioteca foi doada à Universidade de Viçosa, porém o manuscrito lá não se acha, como pude verificar pessoalmente.


Conta o Sousa Coelho que ele possuía, na época (até 1800), um grande garimpo clandestino no Indaiá, no trecho hoje denominado “Serra Pelada”, próximo da atual cidade de Cedro do Abaeté. Garimpo cujas atividades ele encerrou, porque os diamantes já escasseavam, alforriando então os 60 escravos (e suas famílias) que nele trabalhavam. Alforriou-os e lhes fez doação dos 6000 alqueires de sua fazenda do Santiago (que ainda existe com este nome) no Quartel Geral, cabendo nada menos que 100 alqueires para cada família. Mas depois que ele viajou à Europa e depois que morreu o seu grande amigo e defensor, Isidoro Gomes do Amorim, assassinado em Diamantina, o dizimeiro abaeteense Nico Teodoro (Antônio Teodoro de Mendonça) aproveitou-se da situação assim criada, para invadir a fazenda, acompanhado e secundado por latifundiários vizinhos e capangas contratados, massacrando os negros alforriados e suas famílias, a fim de apoderar-se bandidescamente das terras de sua legítima propriedade. Todavia, Nico Teodoro morreu poucos meses depois, assassinado pelos jagunços contratados pela esposa de uma de suas vítimas. A imensa fazenda, entretanto, foi retalhada e vendida pelos invasores, um dos seus pedaços conservando ainda o nome de Santiago.
Ao voltar da Europa, Juca de Sousa, tomando conhecimento da morte de sua muito amada companheira, a cantora e musicista Claudina Pinto Coelho, do seu grande amigo Isidoro e sabendo da invasão da fazenda com o massacre barbaresco dos seus antigos escravos, o Sousa Coelho suicidou-se aos 84 anos de idade, fazendo uma incisão nas veias do pulso. E ficou o inestimável manuscrito, agora desaparecido. E como está desaparecido, não posso me reportar a ele como fonte histórica. Posso apenas trazer a público as suas importantes revelações, não como historiador, mas como um simples repórter que visita terras exóticas e relata o que viu.
Conta-nos Juca de Sousa que os maiores contrabandistas do Indaiá e do Abaeté (e de seus pequenos afluentes) eram os próprios soldados da Guarda, que a Coroa enviava para os multiplicados quartéis destinados a reprimir o tráfico. Sem nada que fazer, naqueles ermos que eram obrigados a povoar, os soldados acabavam todos se convertendo em garimpeiros e traficantes, apenas reprimindo, às vezes, os que se tornavam seus ameaçadores concorrentes. Para manter em funcionamento o seu riquíssimo garimpo clandestino, Juca de Sousa era freqüentemente obrigado a subornar o pessoal desses abominados quartéis: Quartel Geral, Quartel do São João, Quartel dos Pintores, Quartel da Cachoeira Mansa, Quartel da Passagem, Quartel da Guarda dos Ferreiros, Quartel do Boqueirão do Inferno, Quartel da Cachoeirinha, Quartel das Pindobas, Quartel da Fragata, Quartel do Quilombo Velho, Quartel do Mato Preto, Quartel da Pinguela Grande, Quartel do Mocambinho, etc., enfim, uma prodigiosa florescência dos tais famigerados quartéis que deram o máximo de expansão ao sistema do garimpo clandestino e da traficância.....

Trecho do livro “Tiradentes, crônicas da vida colonial brasileira:

O Relato de Juca de Sousa

(Em 1941, quando li o manuscrito no escritório do Desembargador Dr. Onofre Mendes Júnior, eu tinha apenas dezessete anos de idade – hoje, 1998 tenho 74 – e cometi a tolice juvenil de não conservar a pitoresca linguagem setecentista do autor; copiei, para abreviar, em sinais taquigráficos e em linguagem modernizada: achei, na época, demasiado prolixa a original...) Eis o que dizia o manuscrito:

São decorridos vinte dias desde a nossa partida do Rio de Janeiro. Ainda estou fatigado da viagem no lombo de péssimos sendeiros por estradas quase ínvias ou pelo menos muito mal conservadas. A parte mais interessante do percurso de ontem foi ao toparmos com os primeiros indícios da aproximação desta afamada vila, a partir do lugar denominado Capão da Lama, a umas três léguas do Distrito de Cabeceiras, bairro situado para a extremidade sul de Vila Rica.
O caráter calvo e uniforme da região vinha-nos enfastiando desde o Riacho do Chiqueiro. Então chegamos a uma depressão onde se encontram as maiores pedreiras de topázio, vendo-se perto dois edifícios e um rancho de capim. Não deixei de ir ver a jazida, mas do que vi da extração das grandes pedras amarelas direi em outra ocasião.
Passado o Capão, continuamos por aquela região calva, pisando uma terra gorda e cinzenta. De repente, porém, numa curva do caminho, topamos com umas pedras pretas, arredondadas e irregulares, nas quais as ferraduras dos nossos animais retiniam, desprendendo faíscas. Os naturais do país chamam a essas pedras de calçamento “pés-de-moleque”, nome também de um doce muito apreciado, feito de um certo açúcar escuro, misturado com os grãos de certa castanha que formam saliências na massa desse confeito, à semelhança dos pedregulhos que vamos pisando. Rengueando a estrada por apenas um lado, haviam plantado uns belos fícus silvestres, fazendo lembrar muitos caminhos da nossa Europa. Estes fícus não só dão gostosa sombra aos viandantes como protegem o leito da estrada contra a violência das torrentes em tempo de chuvarada. Chegamos a um caminho em degraus, feito de troncos carcomidos, que nos levou à fazenda de um crioulo, um tal de Mané Anrique. Todas as fazendas da área cercadas de intermináveis muros construídos com grandes placas de xisto, fincadas na terra, umas ao lado das outras.
Às três horas da tarde, ultrapassamos uma outra boiada, também a caminho de Vila Rica, em grande parte para ser sacrificada nos festejos e com alguns touros bravios para serem corridos no circo.
Apesar da elevada altitude do ermo, com uns oito mil pés acima do sopé da serra lá em baixo, com a sua ermida fechada e deserta, e o lindo panorama do lugar que bem merecidamente se chamava Bela Vista, o sol excessivamente claro ardia-me no rosto, conquanto um friozinho cortante perpassasse com o vento.
Dali já se avistava, com a sua feia catadura e a sua ingente massa de rochedos, imitando as mais estranhas formas, eternamente envoltas em nuvens, ora diáfanas, ora densas e ameaçadoras, o pico do Itacolumi. Nesse lugar encantador, tivemos várias surpresas e imprevistos. Primeiro foi um escurecimento súbito, com a passagem por nós de considerável massa de nuvens, como eu nunca as vira tão próximas, a não ser há tempos nas encostas do monte Branco, em nossa Europa. Aquelas nuvens pareciam formadas de grossas gotas que vinham desfazer-se de encontro aos nossos rostos e às nossas roupas, que em pouco estavam encharcadas e os nossos ossos enregelados.
Ainda em meio àquele passo caliginoso, fomos tomados de surpresa por um ruído fora do comum. Tratava-se de uma desagradável e roufenha cantilena intercalada de baques ainda mais desagradáveis. Em pouco alcançávamos o singular causador de tamanha desarmonia de sons desencontrados. Era um dos característicos carros-de-bois destas serras: uma grosseira carreta de rodas maciças, puxada por nada menos de quatorze pequenos bois amarelos de grandes aspas recurvas. A viatura ia carregada de uns tijolos de açúcar escuro, protegida a carga por uma esteira de junco entrançado. Creio que aquilo era tudo para os anunciados festejos. Ao lado, seguia a pé o carreiro com a sua longa vara-de-ferrão, destinada a espertar os tardos animais.
No interior da tosca viatura, acocorado sobre o escuro doce, um senhor em uniforme da tropa de cavalaria, com chapéu tricórnio e ar folgazão, o qual fazendo das próprias mãos uma tuba, desferia gritos estentóreos que repercutiam de contraforte em contraforte, numa inquietante vozearia de ecos, a rolar encostas abaixo. O homem parecia divertir-se como criança, com a atoarda de ecos.
Ao ver-nos, aquele jovial senhor de um salto pôs-se carro abaixo, cavalgou a sua montaria, que vinha amarrada à retaguarda da viatura, não demorando a emparelhar-se conosco. Depois de saudar-nos cortesmente, apresentou-se como sendo o Alferes de Cavalaria Joaquim José da Silva Xavier, às nossas ordens, senhor de variadas aptidões: inteligência de mineria, um tanto cirurgião e tiradentes, entendedor de ervas para curar chagas e febres, perito em calçadas, pontes, moinhos e encanamentos, além de conhecer, como a palma da mão, aquelas grotas e serras e bem assim distinguir pelos respectivos nomes e apelidos todos os seus habitantes.
Aquele oficial de “dragões” (“Dragões”, denominação da tropa de cavalaria portuguesa) era realmente um espírito curioso e lúcido, não carecendo de bom cabedal de conhecimentos e experiência do mundo, pelo menos daquele seu mundo de serras e grotas. Falava sem cessar, de tudo e de todos. Todos os que passavam o saudavam cortesmente. De uma tropa que alcançamos, conduzindo uns odres, obteve que nos servissem excelente vinho de uvas e também de açúcar, que nos aqueceu e reanimou bastante, depois de termos ficado ensopados à passagem da nuvem nos altos serranos. Numas voltas do caminho, aquele Sr. Tiradentes, que assim o saudavam os viandantes, apeava para colher ervas que nos oferecia com recomendações sobre suas qualidades medicinais.
A certa altura, aproximou o mais que pôde a sua cavalgadura e falou, quase ao meu ouvido, com os olhos postos numa certa estrela que viu cravada na minha lapela, que ele também era “pedreiro livre”.
Na sua linguagem saborosa e original, punha-me a par das coisas da terra, sagradas e profanas: dos negócios e da política, e até dos poetas e músicos, latinistas e filósofos, artistas e santeiros. Pelo visto, a terra era bastante rica naquelas coisas todas, e bem assim em misérias e escândalos. O meu jovem companheiro tinha um sincero entusiasmo, sobretudo pelos latinistas e filósofos, mas também um pouco pelos poetas e artistas, que entendia menos. Para os escravos e gente do povo cultivava uma exagerada piedade, que a mim me parecia injustificada, de vez que não passavam de uns indolentes. Os escravos, se se esforçassem, poderiam alforriar-se e os pobres poderiam enriquecer-se, se trabalhassem. As riquezas estavam aí, à flor da terra e por toda a parte. Quanto aos senhores de escravos desta terra, se distinguiam por sua brandura.
Mas o meu companheiro de viagem não pensava assim. Supunha, no seu ingênuo entusiasmo, que ele, se fosse governo, não haveria mais injustiças e todos seriam ricos e felizes. Que os do Reino eram os culpados de tudo, porque os da terra eram “uns bostas” e tudo deixavam. Que se todos fossem como ele, aquilo não seria sempre assim. Que ele, entretanto, estava tecendo uma teia que nem em cem anos acharia quem a desenredasse.
Adverti-o severamente daquelas falas desajuizadas, mas ele continuou nelas ainda por algum tampo, até mudar subitamente de assunto para outras falas joviais e menos aborrecidas para mim, que nada queria saber da política local. E eu pude então observar que ele era mais um fanfarrão do que propriamente um revoltado e que, sendo assim, ninguém o tomava a sério, podendo eu continuar, sem maiores percalços, a usufruir sua interessante e útil companhia. Útil se revelou mais do que nunca à chegada de Vila Rica, como veremos.
Eu trazia umas cartas de recomendação, dirigidas a um fazendeiro dos arredores, um Sr. Sebastião da Costa, que o Sr. Tiradentes declarava conhecer e ter mesmo na conta de seu amigo.
Chegamos à porta da casa do Sr. Costa ao acabar de escurecer, num daqueles crepúsculos extremamente rápidos da terra brasileira. Quase que a noite nos apanhava em plena viagem, e justamente no pior trecho da estrada, pois, como venho notando, neste país, as estradas são sempre piores nas imediações dos povoados”. 
Aqui termina a apressada cópia-“tradução” estenográfica que fiz há, precisamente, 56 anos, de um trecho do precioso manuscrito do Capitão José de Sousa Coelho, meu tetravô, então Presidente da Câmara da  Vila do Pitangui (aí por volta de 1790), quando lhe nasceu o primeiro filho, Francisco de Sousa Coelho, filho de D. Ana Maria Milagres, a sua esposa barbacenense, manuscrito  atualmente perdido, infelizmente.

Trecho do livro “Tiradentes, crônicas da vida colonial brasileira:

Eugênia Maria

O manuscrito do Sousa Coelho apenas de passagem se refere ao nome e à pessoa de Eugênia Joaquina, que foi, como se sabe, amásia do Tiradentes. Utilizo aqui outras fontes que não o mencionado manuscrito. Utilizo principalmente a tradição oral da família (da minha família). Eugênia Joaquina que, ao vir para Dores do Indaiá e para o Quartel Geral, se fazia chamar de Eugênia Maria de Jesus, nasceu em Vila Rica, possivelmente em 1812, se é que ela viveu mesmo 121 anos e morreu em Dores do Indaiá em 1933 (quando eu tinha dez anos de idade). Por essa época, ela afirmava ter 121 anos. Teria mesmo? Sua família era pobre e, por isso ela não teve nenhuma formação escolar, sendo analfabeta. Morava no Quartel Geral, para onde foi levada ainda no século XIX (no fim), pelo seu novo amásio, Cônego Francisco de Assis Garcia, um riquíssimo português, contrabandista de diamantes, que possuía, no Indaiá, um rico garimpo clandestino, vizinho do de Juca de Sousa. Sentindo-se solitária naquele ermo do Quartel, Eugênia pediu ao Cônego que escrevesse, por ela, uma carta ao seu único filho, João de Almeida Beltrão, em Vila Rica, convidando-o para vir para o Quartel, trabalhar no garimpo de Assis Garcia. João de Almeida havia-se engajado na tropa paga, mas conseguiu que o transferissem para o Quartel, como cabo comandante do destacamento quartelense. No Quartel, João casou-se com Maria Francisca, filha de um fazendeiro local. Trouxe para o arraial todas as suas tias, que viviam na pobreza e ao desamparo em Vila Rica. Tiveram nove filhos legítimos, Ana, José de Almeida Beltrão, Lúcio, Francelina Fausta Josina, Carolina Augusta Cesarina, Elisa Lisboa Madalena do Carmo, Justino de Almeida Beltrão, João de Almeida Beltrão Júnior, Belchior de Almeida Beltrão, e um número indeterminado de ilegítimos. Vários desses seus descendentes emigraram para diferentes lugares, onde se casaram e tiveram filhos, em Morrinhos (Goiás), Curvelo, Uberaba, Belo Horizonte, etc. João suicidou-se aí por 1820.
Dentre os seus filhos ilegítimos, a tradição de família guardou o nome de Ana Carolina, que se casou em Dores do Indaiá com o Juiz Jacinto Rodrigues Véu (ou Braga ou Zica) o qual uns anos mais tarde foi assassinado por um escravo fugido que ele quis prender. Jacinto, antes de se mudar para o Pitangui, teve uma única descendente, chamada Jesuína Marcelina. Esta Jesuína Marcelina se uniu maritalmente ao Padre Francisco de Sousa Coelho, o filho mais velho do autor do manuscrito há pouco mencionado, e teve com ele sete filhos: José de Sousa Coelho Neto, Ovídio, Francisco, Claudina, Francisca, Carlota e Luíza. Juca de Sousa Neto foi do alto comércio de Dores e foi, por várias vezes, Presidente da Câmara dorense. Ovídio mudou-se para o Triângulo, onde teve um neto, Claudenor de Sousa Guimarães, historiador mineiro de certo merecimento. Francisco foi o pai de Chico Melgaço, que teve um filho compositor musical de certo destaque em toda a Minas Gerais, Luís de Sousa Melgaço. Claudina não teve filhos, mas adotou vários, e deixou uns cadernos de notas que muito me serviram no sentido de reconstituir a história de Eugênia Joaquina. Francisca foi bisavó do conhecido jurista brasileiro Francisco Campos (Chico Campos, o autor da Constituição Federal de 1937). Carlota não teve filhos, mas seu marido, Felício Pinto Fiúza, teve, entre outros filhos ilegítimos, com a filha de uma índia guarani residente em Goiás, o descendente Major Ricardo Pinto Fiúza, o pai de meu pai (Jacinto Pinto Fiúza), o qual Ricardo se casou com a filha mais nova de D. Luíza, filha do Padre Sousa Coelho, Maria Bilia de Sousa Melgaço (portanto, minha avó, pelo costado paterno).
Voltemos a João de Almeida Beltrão. Com esse sobrenome Almeida Beltrão, quem era seu pai? Segundo Eugênia Joaquina disse e o repetiu para sua bisneta Claudina Sousa Coelho, o pai era o próprio Tiradentes, de quem ela, Eugênia, fora amásia por muitos meses. E por que esse sobrenome e por que consta do batistério de João que o pai é o açougueiro José de Almeida Beltrão? Eugênia esclarecia: José de Almeida devia ao Tiradentes uma boa soma em dinheiro e estava sem recursos para pagar. Nesse tempo, eu era amásia dele, José de Almeida. Mas gostava mesmo era do Xaviel (Tiradentes) e já tinha, no escondido, relações de amor com ele. Nisto, fiquei grávida (de Joaquim José). Então, José de Almeida (que era estéril) me ofereceu, em pagamento da dívida, ao Tiradentes, que gostava de mim e aceitou. Fiquei amásia do Tiradentes e fui viver com ele. Ele já estava preso e esperando ser condenado à morte, quando João nasceu. Mandou então um padre, Frei Marcondes, me dizer: “– Volte a viver com o José e batize o nosso filho como filho dele e não meu, senão ele vai sofrer muita perseguição”. Assim se fez, mesmo porque o José era doido por ter um filho, nem que fosse adotivo. Portanto, João de Almeida Beltrão era filho do Tiradentes. Ana Carolina era filha de João, filho do Tiradentes (Ana era neta). Jesuína, como filha de Ana Carolina, era neta de João Beltrão e bisneta do Tiradentes. Luíza, filha de Jesuína, era neta de Ana Carolina, bisneta de João Beltrão e trineta do Tiradentes. Minha avó Bilia era filha de Luíza, neta de Jesuína, bisneta de Ana Carolina, trineta de João e tetraneta do Tiradentes. Meu pai, Jacinto, era, por conseguinte, pentaneto do Tiradentes e eu sou hexaneto... E como se explica uma tão rápida sucessão de gerações? É que naquele tempo, os casamentos eram inacreditavelmente precoces. João Beltrão se casou aos dezessete anos; sua filha (ilegítima) Ana Carolina se uniu ao Dr. Jacinto com treze anos; Jesuína, sua filha, uniu-se ao Padre Sousa Coelho com doze anos; Luíza, filha do Padre, casou-se com quatorze anos; minha avó Bilia casou-se aos quatorze anos e meu pai casou-se aos dezenove, com Maria da Conceição, minha mãe, que tinha dezesseis.

 

Trecho do livro “Águas da Piraquara”  (inédito)

OS SANTINHOS DO MESTRE ZÉ BUGIO
                                  

 Diamantes, riqueza e ruína dos homens
                                    Braço, almocafre, alavanca
                                     reviram naquela terra
                                     a sementeira de chamas
                                     para que as futuras florestas de fogo ali se levantam ...

Cecília Meireles

 

O casarão da botica-e-residência em estilo barroco açoriano, do arquipélago barroco dos Açores, a compararmos com uma fotografia vista no livro O CORSÁRIO DAS ILHAS, do açoriano Nemésio: a casa de Jacinto Fiúza de Almeida em S. Gonçalo da Mota, menos de uma légua retirada da antiga vila do Pitangui. A primeira construída no Pitangui, construída ainda no século XVII. Um só pavimento na frente, mas três pavimentos na parte de trás, no declive do terreno, que descambava para o rio S. João, quintal abaixo. O rio no fundo do quintal.
Conheci-a ainda bem conservada em 1937, mas foi demolida no ano seguinte. O porão era a vasta senzala dos escravos, uns vinte ou trinta, a julgarmos pelos números de argolas de ferro encastoadas em fila na parede.
No andar de cima, acima do porão, o segundo, trabalhavam os escravos artesãos. Este produzia calçados e arreios: botas, botinas, chicotes, etc. Aquele curtia couros e peles. Aqueloutro enrolava fumo. Escravas que teciam algodão. E o Zé Bugio, o santeiro, que modelava, entalhados na madeira, os seus santos. Zé Bugio era feio como um bugio, mas possuía mãos abençoadas, das quais saíam pequenas obras-primas.
E tudo era exportado para S. Paulo, botinas e botas, rolos de fumo, tecidos grosseiros de algodão, santinhos de pau, peças de ferro fundido e cachaça.
Ferro fundido, sim. Os escravos africanos foram os primeiríssimos fundidores do metal, achado à flor da terra em glebas pitanguienses. Ensinando a técnica aos brancos, que o que fizeram (mas isto muito mais tarde) foi aumentar a escala da produção.
E cachaça igualmente sim. Com a dupla função de estimular os negros ao trabalho e desestimulá-los à revolta.
Cachaça, pois o grande combustível colonial (que abastecia e embruteciam os escravos, os quais sem esse estímulo esmoreciam no eito e se acendiam em revoltas a debandar para os quilombos).
No andar mais de cima, o terceiro, de frente para a rua, labutavam no balcão, das cinco ou seis horas da manhã às nove da noite, os escravos boticários, os que vendiam os nacos de queijo, que serviam os goles de cachaça, que vendiam os pedaços de fumo, e o sal, e o arroz e o feijão, os panos e tudo o mais.
Mestre Bugio entalhava madeira, desde o primeiro clarorzinho matinal ao derradeiro fulgor do entardecer. Entalhava, lavrava.
Ah esquecia-me da pólvora. Misturava-se enxofre com salitre, o explosivo dos arcabuzes e bacamartes. E tudo seguia em lombo de burro, rumo a S.Paulo.
Por que tamanha atividade num ermo como o Pitangui daquele tempo? Jacinto se escondia para não pagar os extorsivos impostos (a sonegação defensiva, da parte dos contribuintes escorchados, era mais antiga do que o Brasil: viera de Portugal para cá e viera da Hispânia Romana para o Reino Lusitano, viera, enfim, dos grandes de Roma contra os pequenos do Império. Tinha dois mil anos e mais. Jacinto, neto de Jacinto Fiúza da Costa, escapara de Santos, na Costa Vicentina, depois de beber, brigar e matar, e refugiara-se, com duplo proveito, naquele ermo. Até ali os esbirros não ouviriam. Este o primeiro proveito. Quanto ao segundo, era a sonegação dos tributos. A futura vila do Pitangui ainda não existia. Quando chegaram em 1709 os fundadores, isto é, os derrotados e foragidos da refrega emboaba, os Domingos do Prado e os Bartolomeu Bueno, já encontraram uns casebres ao redor de Jacinto. Foi portanto o verdadeiro fundador de Pitangui.
Havia, porém, uns outros proveitos, ainda mais inconfessáveis do que aqueles. Por exemplo, aquilo estava a meio caminho entre S. Paulo e o Abaeté.
E no rio Abaeté, uns quilombolas tinham desentocaiado umas pedrinhas. Ora, Jacinto era amigo velho de quilombolas, esses outros foragidos. Então, eles ofereceram as pedras ao judeu santista. E Jacinto comprava, Jacinto pagava.

 
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